Às 16h45 desta quinta-feira, 4 de janeiro, outra tragédia promovida pela empresa WTorre voltou a acontecer na comunidade Cajueiro, em São Luís do Maranhão.

Nesse horário, policiais da Delegacia Agrária chegavam ao local em quatro viaturas para dar suporte à derrubada de mais uma casa na região.

Desta vez, a vítima foi o “seu Alberto”, que teve a casa demolida, ao que conste, sem nenhuma decisão judicial – e o que é pior: com o apoio do aparato estatal.

Segundo moradores, os policiais chegaram em quatro viaturas, “com um papel na mão, mas que não deixavam ninguém ver”, e que, segundo os próprios policiais, seria um boletim de ocorrência – documento claramente insuficiente para que se derrube uma casa. Além disso, pessoas que tentavam evitar a derrubada eram ameaçadas de prisão pelos policiais.

Nos últimos dias, no entanto, a Polícia do Maranhão não foi o único órgão estatal a “dar as caras” no Cajueiro: nesta quarta-feira, dia 3, fiscais do IBAMA, órgão ligado ao ministério do Meio Ambiente, comandado por Sarney Filho, que já se declarou contrário à reserva ambiental que engloba parte do Cajueiro e outras comunidades rurais de São Luís, estiveram na área.

Uma visita técnica que deveria servir para averiguar o desmatamento empreendido pela empresa na região e feito com que animais invadam as casas, deixou os moradores com a pulga atrás da orelha: tal como a presença da Polícia nesta quinta-feira, os fiscais se faziam acompanhar por representantes da empresa (no caso do IBAMA, o advogado da WPR estava junto, no caso da PM, a companhia era dos guardas que trabalham para a empresa).

 

CRIME

Tentou-se, então, acionar agentes do governo para intervir na questão.

Até às 17h15, aproximadamente, foram procurados os secretários Chico Gonçalves e a subsecretária Creusamar (Direitos Humanos e Participação Popular), Jeferson Portela (Segurança), Márcio Jerry (Articulação), sem sucesso. O ouvidor da Defensoria Pública também tentou contatá-los, sem conseguir.

Na sequência, Francisco Gonçalves, depois que várias denúncias sobre o assunto já circulavam nas redes, foi alcançado pelo celular, respondendo que encaminharia uma equipe ao local para averiguar a situação e daria retorno sobre o caso. Até bem depois das 18h ninguém da Secretaria havia chegado ao local.

O que se espera é que o retorno não demore tanto quanto a última derrubada de casas na região, que ocorrera ainda sob os governos da Família Sarney (durante o mandato nanico de Arnaldo Melo, substituto de Roseana, no final de 2014), quando, às vésperas do Natal, dezenove moradias foram ao chão, com o depoimento de uma criança comovendo o Maranhão (veja AQUI). Ou melhor: comovendo parte dos maranhenses com acesso às redes sociais – a mídia local, sempre se refere à WPR como “gigante que vai gerar mais de cinco mil empregos”, como tem noticiado quase que diariamente o jornal “O Imparcial“, de São Luís –  fato que uma pesquisa jornalística de cinco minutos em documentos emitidos pela própria empresa que tanto quer ver seu porto no local onde hoje está a comunidade Cajueiro bastaria para desmentir: o maior número de empregos “gerados” é de 850 durante a construção.

O Relatório de Impacto Ambiental revela que, após encerrada essa fase, o empreendimento geraria, na verdade, grande desemprego, comprometendo inclusive a segurança e a saúde no local, dado o afluxo de pessoas que para lá acorreriam sem ter nada garantido, impactando a demanda por políticas públicas na região.

Caso essa pesquisa fosse demasiado longa, os jornalistas que saúdam o contato do vice-governador com “os chineses para dar como certo o empreendimento” poderiam consultar o Google, onde constatariam a falência de várias empresas do grupo da “gigante”, o sem-número de ações judiciais, ou a investigação a que está submetido o empresário Walter Torre Júnior, dono da WTorre e, por consequência, da WPR,  na operação Greenfield (desvio dos fundos de pensão, bancos públicos e estatais estimado, inicialmente, em pelo menos em 8 bilhões de reais), tendo sido denunciado pelo Ministério Público Federal no último dia 11 de setembro – um mês depois, teve de dar em garantia 500 milhões de reais para cobrir possíveis prejuízos dados por ele em fundo de pensão como o da Caixa Econômica Federal).

Sobre as dezenove primeiras casas derrubadas no Cajueiro pela WPR, apenas recentemente o secretário de Segurança informara que o inquérito havia sido finalmente concluído com o indiciamento de diretores  da WPR/WTorre, que responderão a processo criminal sobre essa primeira circunstância.

Ele informou à comunidade três anos depois da derrubada, durante protesto de moradores, no último dezembro, às portas do palácio dos Leões, sede do Governo Estadual, quando se reivindicava o fim do desmatamento que a empresa vem promovendo na região (o desmatamento encontra-se temporariamente suspenso após os protestos, mas o secretário estadual de Meio Ambiente já afirmou que as etapas viciadas do licenciamento da obra não deverão ser revistas pela secretaria: “Procurem a justiça”, respondeu ele quando questionado pela comunidade). Os vícios foram apontados inclusive pelo Conselho Nacional de Direitos Humanos, que cobrou do governador Flávio Dino etapas não observadas no processo, como consulta pública, prévia e informada à comunidade sobre o empreendimento, como previsto em acordos internacionais firmados pelo Brasil, entre outras exigências (veja AQUI). Outras explicações são devidas nesse caso, também por outras instâncias,como o fato de um juiz que não era competente para esse processo ter autorizado que a empresa entrasse no local com o intuito de cometer o que depois restou classificado como crime.

Depois dos Sarneys, que também tiveram campanha eleitoral financiada pela WTorre, agora o governo Flávio Dino tem seus próprios escombros para chamar de seus. Enquanto o governador passará uma noite tranquila em seus travesseiros, mais uma família de Cajueiro está, hoje, com sua casa no chão, com apoio de seu governo ao gigante que esmaga e oprime os pequenos. Sem contar os demais moradores, apreensivos e sem sossego com a situação de terror estabelecida em sua localidade pela empresa de Walter Torre Júnior.